O BMW branco passa por um restaurante taiwanês perto de Vancouver, chamado em um aplicativo escrito em chinês. A viagem de oito minutos no impecável sedã é tranquila, barata e ilícita.

Vancouver é a maior região metropolitana da América do Norte que não legalizou aplicativos de transporteindividual. Mas os serviços clandestinos para quem fala chinês estão em franca expansão.

Frotas de veículos muitos deles luxuosos transportam passageiros na cidade e seus arredores. Para acessá-los, é preciso navegar um aplicativo em chinês e, de preferência, entender mandarim ou cantonês para que os motoristas não suspeitem que o passageiro é um policial disfarçado.

“Nosso objetivo não é o mercado chinês claro que preferimos ter um mercado maior, o de todos os canadenses”, disse Daniel Xiao, diretor financeiro da Gokabu Group, dona da plataforma Kabu, que afirma ter 90 por cento do mercado de transporte individual e um serviço em inglês prontinho. Existem outros aplicativos. Foram 18 em determinado momento, como Longmao e Udi Kuaiche.

O governo da Colúmbia Britânica aprovou legislação no último trimestre do ano passado que abriria caminho para os serviços de caronas compartilhadas neste ano sete anos depois da primeira tentativa da Uber Technologies de entrar nessa província canadense na costa do Pacífico. Porém, o formato da legislação provavelmente obrigará fãs do Uber e quem só fala inglês a esperar muito mais pelo lançamento em grande escala, se é que isso vai acontecer.

“Sabemos que as pessoas estão frustradas e esperando há muito tempo”, afirmou a ministra dos Transportes, Claire Trevena, quando anunciou a legislação.

Atualmente, um táxi que leva um passageiro de um subúrbio a outro de Vancouver não pode pegar outro cliente na volta se não tiver licença para atuar naquela zona. O licenciamento para atuar em toda a região de 2,5 milhões de habitantes exigiria a obtenção de alvarás escassos e caros em 21 municípios.

O Aeroporto Internacional de Vancouver restringe a operação de táxis no terminal e seus alvarás custam a partir de 3.120 dólares canadenses (US$ 2.325) por ano.

Pesadelo para pegar táxi

A estrutura criou um pesadelo para quem precisa de táxi em Vancouver. No verão, quando navios lotados de turistas ancoram no porto da cidade, fica quase impossível conseguir um carro. Com pouco concorrência, os taxistas se recusam a ir para determinados locais e não aceitam cartão de crédito.

Diante de tantos regulamentos para operar, as duas gigantes de transporte indicaram que podem parar se insistir.

“Nunca entramos em um mercado com tanta coisa”, disse Joseph Okpaku, responsável por relações governamentais da Lyft, durante audiência com parlamentares na capital da província, Victoria, em janeiro.

Segundo a Uber, as regras podem efetivamente “proibir as caronas compartilhadas”, afirmou em email Michael van Hemmen, gerente da empresa para o Oeste do Canadá.

Negócio em expansão

Neste ambiente, Kabu e concorrentes em chinês nadam de braçada. Segundo Xiao, a demanda vem aumentando 26 por cento ao mês desde o início das operações da Kabu, em 2016.

Os dados revelam que a demanda é maior por viagens curtas, que completam o percurso de usuários do transporte público de Vancouver.

Um post escrito no grupo de Facebook “Bring Uber to Vancouver” no mês passado fazia uma comparação com outra cidade, pedindo “Saskatoon tem Uber… vamos lá, Vancouver”.”Não apoio o Uber de jeito nenhum”, disse Doug McCallum, prefeito de Surrey, outra cidade da Colúmbia Britânica, durante um debate em outubro. Surrey é a sede do lobby dos taxistas. No auge, uma licença de táxi em Vancouver chegou a custar 1 milhão de dólares canadenses.

Enquanto o debate não se resolve, os operadores chineses arregaçam as mangas.

A Kabu recrutou 1.800 motoristas que fazem, na média, 2.500 viagens por dia e ainda entregam comida. A empresa tem ambições de usar a plataforma Kabu para pagamento de contas, entrega de documentos, compras de ingressos e muito mais.

“Queremos ser a Alipay do Canadá”, disse o cofundador da Gokabu, Hill Huang. “O transporte nos carros é só uma parte. Se a Uber conseguir resolver o problema, será perfeito.”

Repórteres da matéria original: Natalie Obiko Pearson em Vancouver, npearson7@bloomberg.net;Krista Gmelich em N York, kgmelich1@bloomberg.net

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